sexta-feira, 29 de julho de 2016

Melhores trechos "O oceano no fim do caminho" de Neil Gaiman


As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo.

Quando envelhecemos, ficamos iguais aos nossos pais; viva o suficiente e verá os rostos serepetirem com o tempo.

Estava triste por ninguém ter ido à minha festa, mas feliz por ganhar umboneco do Batman, e ainda havia um presente de aniversário esperando para ser lido: a coleçãocompleta de As crônicas de Nárnia, que levei para o meu quarto. Deitei na cama e me perdi nas histórias.Gostei disso. Livros eram mais confiáveis que pessoas, de qualquer forma.

— Todas as brigas e todos os sonhos. É tudo por causa de dinheiro, não é?
— Não sei ao certo — respondeu Lettie.

Adultos seguem caminhos. Crianças exploram. Os adultos ficam satisfeitos por seguir o mesmotrajeto, centenas de vezes, ou milhares; talvez nunca lhes ocorra pisar fora desses caminhos,
rastejar por baixo dos rododendros, encontrar os vãos entre as cercas. Eu era criança, o quesignifica que conhecia dezenas de modos diferentes de sair do nosso terreno e ir para a rua, modos
que não incluíam descer pela entrada de carros na frente da casa.

— Quem é você? — perguntei.
— Ursula Monkton. Sou a governanta de vocês.
— Quem é você de verdade? Por que está dando dinheiro às pessoas?
— Todos querem dinheiro — respondeu ela, como se aquilo fosse óbvio. — Isso deixa todos
felizes. E fará você feliz, se você deixar.

Fui para outro lugar em minha cabeça, para dentrode um livro. Era para onde eu ia sempre que a vida real ficava muito difícil ou muito inflexível.

De repente o futuro passou a ser um mistério: tudopodia acontecer. O trem da minha vida descarrilou, saiu dos trilhos e cruzou os campos, e agoraseguia pela estrada comigo.

Ninguém realmente se parece por fora com o que é de fato por dentro. Nem você. Nem eu.As pessoas são muito mais complicadas que isso. É assim com todo mundo.

Vou dizer uma coisa importante
para você. Os adultos também não se parecem com adultos por dentro. Por fora, são grandes edesatenciosos e sempre sabem o que estão fazendo. Por dentro, eles se parecem com o que sempreforam. Com o que eram quando tinham a sua idade. A verdade é que não existem adultos. Nenhum,no mundo inteirinho.

Naquele momento tive certeza de que iria morrer.Eu não queria morrer. Meus pais me disseram que eu não morreria de verdade, não o meu eureal: que ninguém que morre morre de verdade, que meu gatinho e o minerador de opala tinham
apenas adquirido um novo corpo e logo, logo voltariam a viver.

— Eu não podia levar você até o oceano — disse ela. — Mas nada me impedia de trazer ooceano até você.

Não tenho saudade da infância, mas sinto falta da forma como eu encontrava prazer em coisaspequenas, mesmo quando coisas maiores desmoronavam. Eu não podia controlar o mundo no qual
vivia, não podia fugir de coisas nem de pessoas nem de momentos que me faziam mal, mas tinhaprazer nas coisas que me deixavam feliz.

— Nada nunca é igual — respondeu ela. — Seja um segundo mais tarde ou cem anos depois.Tudo está sempre se agitando e se revolvendo. E as pessoas mudam tanto quanto os oceanos.

Um lampejo de ressentimento. Já é difícil o bastante estar vivo, tentando sobreviver no mundo eencontrar o seu lugar nele, fazer as coisas de que se precisa para seguir em frente, sem se perguntar
se aquilo que você acabou de fazer, o que quer que tenha sido, foi o suficiente para a pessoa que, senão morrera, desistira da própria vida. Não era justo.
— A vida não é justa — comentou Ginnie, como se eu tivesse dito aquilo em voz alta.

Com vinte e poucos anos, finalmente me aproximei do meu pai. Nós tínhamos muito pouco emcomum quando eu era criança, e tenho certeza de que o deixava desapontado. Ele não pediu um
menino com um livro, fechado em seu mundinho. Queria um filho que fizesse o mesmo que ele:nadar, lutar boxe, jogar rúgbi e dirigir carros velozes com impulsividade e satisfação, mas não foiisso o que ele acabou tendo.

Uma história só é relevante, suponho, na medida em que as pessoas na história mudam. Mas eu tinha sete anos quando todas essas coisas aconteceram, e no fim de tudo era a mesma pessoa que
era no início, não era? Todos os outros também. Deviam ser. As pessoas não mudam.Mas algumas coisas mudaram.

Seus olhos eram tão singulares. Eles me lembravam o mar, então a chamei de Oceano, e nãosaberia lhe dizer por quê.

— Não existe passar ou ser reprovado em ser uma pessoa, querido.
Coloquei a xícara e o prato vazios no chão.
— Acho que você está melhor agora do que estava da última vez que o vimos. Para começar,
está cultivando um novo coração — disse Ginnie Hempstock.

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